Cólera dos Justos nos Reinos Esquecidos

O Preço da Inveja

Era bom demais para ser verdade.

A jovem estava caída, bastante machucada, com diversos sinais dos ferimentos causados por seus algozes. Pelos olhos de um babau que ele havia dominado, comumente chamado de demônio de sangue, a entidade de sombras observava o seu prêmio. Sem nenhum clérigo ou sacerdote próximo para curá-la, e notando que os seus defensores e aliados estavam atacando outros tieflings que guardavam a ponte, ele deleitava-se com os espasmos e com a respiração ofegante e engasgada de Victoria, que travava uma batalha intensa com seu próprio corpo para manter-se viva. Contudo, ela estava perdendo a batalha, e o desejo mais intenso de Eustoyriax era encerrá-la o mais breve possível, sagrando-se campeão deste embate e tomando como troféu a sua essência mítica.

Como era da natureza dos demônios da sombra, chamados de invidiaks pelos insanos estudiosos das criaturas que habitavam o Abismo e outros planos inferiores, sua forma de agir era muito mais sutil do que a de outros demônios. Haviam até mesmo discussões acadêmicas acaloradas acerca do fato deles serem de fato demônios ou não, já que sua forma de agir era mais semelhante à dos baatezus e diabos dos Nove Infernos, dado o seu comportamento manipulador e sua maneira de corromper os mortais. Tais argumentos foram vencidos mais tarde, quando descobriu-se que cada demônio (especialmente os demônios hierarquicamente mais poderosos), representavam um dos pecados inerentes praticados pelos seres mortais dotados de livre arbítrio, sendo os invidiaks associados com o pecado da inveja.

Este era exatamente o sentimento que dominava Eustoyriax naquele instante. Inveja desses estranhos que detinham o poder mítico cobiçado por tantos no Multiverso, inveja das maravilhas que seriam possíveis de serem desempenhadas por ele, caso ele tivesse apenas uma parcela dessa energia aparentemente inesgotável. “O Poder Mítico é um dos pilares da matéria prima do Cosmos. Os Planos Exteriores são compostos, dentre outros elementos como fé e poder divino, da essência mítica da Criação”. O invidiak havia estudado com cuidado esses invasores e a natureza de suas habilidades recém adquiridas, desejando-as para si de qualquer maneira.

Sua primeira tentativa de possuir um dos presentes no combate havia sido mal sucedida. O capitão tiefling que enfrentava os invasores havia mostrado-se obstinado demais para deixar a sua mente aberta para o domínio de qualquer entidade externa. E o outro detentor de sangue demoníaco estava longe demais, utilizando seus poderes arcanos para punir o cavaleiro que considerava-se protegido em sua carapaça de metal. Ledo engano, descobriria o cavaleiro segundos mais tarde, ao ver sua armadura completamente destruída aos seus pés por um feitiço do tiefling mago.

A entidade mais próxima da arqueira ferida era um dos babaus convocado exatamente por este mago, que observava o ataque e preparava-se para atacar o paladino que estava de costas para ele. Eustoyriax não poderia possuí-lo, pois ele também era um demônio. Mas mesmo sem conseguir possuir uma entidade que não possui alma, ele ainda poderia dominá-lo, com uma ordem simples e fácil de ser cumprida.

“Mate-a”, foi o comando inserido na mente do babau, que pouco entendeu a sua compulsão por atravessar sua alabarda no abdômen de um inimigo caído, ao invés de enfrentar os que ainda brandiam espadas. Ainda assim, a vontade, e até mesmo parte da inveja de Eustoyriax inundaram a mente do demônio mais fraco, e ele pouco podia fazer senão sucumbir à compulsão de encerrar, de maneira permanente, a vida daquela humana que jazia na sua frente.

O êxtase e o urro de satisfação de Eustoyriax foram tamanhos, que ele demorou alguns instantes para compreender o tamanho de seu erro. Sua celebração ecoou de tal maneira nas masmorras da Cidadela de Drezen que uma imensa fera despertou de seu sono. Despertou, e farejou aquela essência entorpecedora, a mesma essência que a Quimera havia provado ao saborear a mão do finado deus da justiça, quando este a havia aprisionado eras atrás. Com um pensamento, o Terror de Fortriu deixou o seu covil e teletransportou-se para os céus de Drezen, rumando para a ponte que estava sendo atacada, seguindo a sua fome.

Eustoyriax amaldiçoou-se pela sua própria inveja, que havia obscurecido seus outros sentimentos, inclusive sua calma habitual. Ele sabia que deveria agir rápido para possuir aquele poder mítico, já que ele não havia esperado tanto tempo para ser preterido por uma besta qualquer. E não o seria.

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george_bonfim

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